Domingo, 20 Mai 2012
 
 
Morihiro Yamauchi PDF Imprimir E-mail

Morihiro Yamauchi

A Força do Karatê Goju-Ryu

Nossa entrevista desta edição é com o Mestre Morihiro Yamauchi, 8ºDan em Karatê Okinawa Goju-Ryu.
Apesar de ter sido um dos primeiros a ensinar esse estilo no Brasil, vindo diretamente de Okinawa, e ser um dos representantes diretos na América do Sul, Mestre Yamauchi não costuma aparecer em publicações nacionais. A razão de seu desinteresse sempre foi a falta de um domínio fluente do português, coisa que relevamos nessa matéria para poder levar até você os pensamentos de um dos grandes karatecas de nosso país.


Goju significa, respectivamente, "Duro" e "Suave". Como conciliar coisas tão diferentes?

Go e Ju são ambos lados da mesma coisa, são complementares. Ninguém pode ser totalmente Go ou totalmente Ju. Então temos que treinar os dois, né? Na luta, se o adversário vem com muita força, Go, nós nos defendemos com Ju, suavidade. Se ele vier com uma técnica suave, Ju, usaremos o Go, mais forte, mais duro. Sempre complementando, como falamos antes.


O Santchin é o fundamento básico do Goju. Qual a sua importância e por quê?


O Santchin é mesmo o básico do Goju-Ryu. Além do Kata Santin, temos a posição Santchin Dachi, que é a mais estável que existe. No Santin Kata nós trabalhamos a respiração e estabilidade, além da tensão muscular. Como respiração, o Santin possui quatro tipos: inspiração longa-respiração longa; inspiração longa-respiração curta; inspiração curta-respiração curta; inspiração curta-respiração longa. Cada tipo de respiração possui uma aplicação na luta, ajustando nossos pontos fracos e "recarregando" o corpo. O Santchin é muito mais complexo do que parece para quem olha de fora. A tensão muscular é treinada para duas coisas: fortalecimento e proteção. Como fortalecimento ela age como se fosse uma musculação, desenvolvendo bastante os músculos. Como proteção, ele treina os reflexos do corpo para poder "endurecer" o músculo no momento de ser golpeado pelo oponente. Raramente se consegue um bloqueio 100% eficaz, sempre entra pelo menos uma pane do golpe, daí a necessidade de uma proteção adicional. Por esse motivo o Mestre golpeia o estudante em vários pontos durante esse kata, para ele poder treinar a tensão muscular correta na posição correta e em todos os pontos.


Muitos acham o estilo Goju-Ryu muito lento e pesado. Isto é real? Qual a sua principal vantagem num combate?

(risadas) E mesmo? Estão enganados! O Goju-Ryu tem um treinamento pesado e trabalhoso, mas na luta tem que ser diferente, não pode ver um lado só. Temos posições e técnicas bem rápidas, como a postura Neko Ashi, que é bem maneável, e esquivas e desvios com as mãos abertas. A vantagem numa luta seria a distância. O Goju-Ryu treina distâncias muito curtas, por isso sua preocupação com a estabilidade. Nessa distância o importante é o Kime [Nota do editor: técnica de focalização de toda a força do praticante num único golpe]. O Kime do Goju-Ryu é um dos mais poderosos que existem. Também nosso soco, que sai da linha da axila não da cintura, se torna mais forte por usar muito os músculos das costas e peito além do ombro e braços. Isso é uma grande vantagem em curtas distâncias.


Como é o estudo das armas no Goju?

O básico é o Bo (bastão longo). Ele usa muito o Santin e treina bastante as bases. Mas as colocações são as mesmas do Kobudo, não tendo diferenças importantes.


Este estilo enfatiza muito a tensão muscular. Isso não prejudica as técnicas?


Não, não. Como disse, a tensão muscular não é o tempo todo, mas apenas no momento de receber um golpe e no treinamento muscular. Lutar tenso vira robô! Nossa luta é sempre relaxada, em Neko Ashi. A concentração e tensão ocorrem apenas no momento de golpear, quando a base deve ser bastante sólida para transmitir força ao soco, ou ao receber um golpe.


Qual a importância dos treinos com pesos, instituídos pelo Mestre Miyagi?


Nosso estilo é um dos únicos a pregar o trabalho com pesos, instituído por Miyagi Sensei. Naquele tempo se usavam equipamentos feitos de pedra e garrafas cheias de areia. Isso é utilizado para treinar o lado Go (duro), que é mais difícil de ser trabalhado e tem que se esforçar bastante. Mas sempre sem esquecer o Ju!


Fale-nos um pouco sobre a respiração e o Ki.


Respiração e Ki são muito importantes no Goju. Miyagi Sensei estudou muito tempo a respiração e fez pesquisas com médicos. Nossa respiração é sempre feita pelo Tandem (ponto localizado três dedos abaixo do umbigo). Se respirar deste modo, pode-se agüentar melhor um golpe e ter mais força. Usamos também "engolir' o ar, para "encher” o hara, como pesquisado por Miyagi Sensei.


Como está o Goju Ryu no Brasil?


Está se desenvolvendo muito bem. Temos aumentado os laços entre a Shobu-Kan e outras associações. O Brasil teve bons Mestres como Akamine, Yonamine, Watanabe e outros. Estamos tentando conversar com outros grupos e compartilhar experiências, principalmente em Kata. Estudamos com professores diferentes e existem diferenças entre as associações, embora sejam todas Goju-Ryu. Espero poder estreitar esses laços e cooperação com outras associações num futuro muito próximo.


Que mensagem o senhor daria a nossos leitores?


Que se dediquem ao Kata. Essa é a base de qualquer estilo de Karatê. Hoje o Kata tradicional está sendo deixado de lado, principalmente porque não é "competitivo". Mas de que adianta ser competitivo se o Karatê não funcionar de verdade? Kata competitivo não é fundamento. Um jornalista inglês estudou Goju-Ryu tradicional muitos anos e acabou sendo repórter em uma guerra. Numa situação de perigo, teve que se defender e usar seu Karatê. Depois escreveu que, se tivesse se limitado à parte esportiva e não tivesse estudado os Kata tradicionais, não teria sobrevivido. Estudem com cuidado e carinho os Kata de maneira tradicional e não se arrependerão no futuro.



PERFIL: MORIHIRO YAMAUCHI

Mestre Yamauchi nasceu em Yokohama, Japão, em 1940, filho de Okinawanos. Importante cidade portuária, Yokohama foi escolhida por seus pais como opção de emprego devido à carência de trabalho em Okinawa e à crescente indústria japonesa, alimentada pela Segunda Guerra Mundial. Com o final da guerra em 1945 e a derrota do Japão, seus pais retomaram a Okinawa levando o pequeno Morihiro. Aos 17 anos começou seu treinamento com o respeitado Mestre Seikichi Toguchi, aluno direto do fundador do Goju-Ryu,
Chojun Miyagi. Depois de quase dois anos de treinamento, seu Mestre viajou para Tóquio para difundir melhor o estilo e levou Yamauchi como ajudante. Depois de um ano e meio ajudando seu Mestre, Yamauchi sentiu saudades de casa e retornou para Okinawa, continuando seus estudos com seu Sempai, o Mestre Shinjo Massonobu, que assumiu a Shobu-Kan na ausência de Mestre Toguchi.

O treinamento em Okinawa na época era muito severo e não era raro acontecerem desafios e pequenos confrontos entre alunos de vários estilos. Mestre Yamauchi contou-nos alguns destes embates de que participou, que sempre acabavam com cavalheirismo e respeito. Era um teste válido numa época em que não existiam competições.

Aos 23 anos resolve vir ao Brasil onde já estavam três de seus irmãos. Apesar de trabalhar numa chácara em São Paulo, continuou seu treinamento com seu irmão, também praticante de Goju-Ryu. Em 1968 abriu uma pequena academia com seu irmão na sobreloja do antigo posto do INPS de São Bemardo do Campo, na região do ABC paulista. Ao longo dos anos ensinou em vários lugares do ABC, desde sobrelojas de restaurantes orientais (muito conveniente, segundo ele) até vários clubes em Santo André. Em 1975 voltou a São Bernardo, onde se fixou até hoje, em sede própria. Mestre Yamauchi retoma periodicamente a Okinawa para se aperfeiçoar, tendo estado lá pela última vez em 2007.

matéria extraída da revista Oriente nº8